#NossoFutebol025 Onde estão os admiradores que não corrompem?

Onde estão os admiradores que não corrompem?

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Demorei, mas consegui aglutinar os sentimentos e alguma parcela de informação para escrever algo sobre o famigerado “jogo do acesso”, que mais uma vez pôde ser chamado de tragédia tricolor. A expressão “tragédia anunciada” não encontrou lugar naquela arena lotada, assim como a bola não encontrou a casinha xavante. Sem muitas explicações sobre o jogo, prefiro me ater (e me conter) com as reações e relatos dos torcedores e “formadores de opinião”.

Um dos elementos que teve grande contribuição para o arrolar destes lamentos foi uma frase de Nelson Rodrigues. Aprecio a forma como este prosador fala do futebol, e é com uma expressão a ele atribuída que traço um pouco do que me gerou incômodos e algum ranço de certeza: “A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.”

Outro dia, lendo alguma coisa sobre o tricolor das Laranjeiras, estacionei a ruminar as palavras deste poeta. Sempre me incomodaram os elogios a esmo, assim como quaisquer críticas que só tem de verdade o abrasear de palavras quentes e sem raiz. A expressão entre aspas sintetiza um pouco de como é a paixão pelo futebol, a cegueira que para alguns tem três cores, para outros tem duas, enfim. Não há grandes problemas quando a paixão enche os lagares de quem ocupa um lugar na arquibancada, desde que este lugar permaneça intacto independente do resultado. Preocupa sim – mas não me impressiona mais – quando os interesses e paixões com contornos desconhecidos habitam as cabines de imprensa ou lugares de autoridade na gestão dos clubes.

Como uma bola dentro ou fora pode mudar aquilo que pensamos acerca daquilo que tínhamos como fato, uma certeza indissoluta? No futebol isso é regra. Somente no futebol? Claro que não, o ser humano faz coisas inexplicáveis o tempo quase todo, mas, aqueles que não o fazem estão sempre na linha tênue entre o “ser do contra” ou a postura aceitável.

O agora ex-treinador tricolor Marcelo Chamusca foi alvo de algumas linhas neste alfarrábio digital, trazendo à luz a ciência de que ele já tinha: o seu trabalho seria julgado pelos 90 minutos que fizesse na Arena Castelão no dia 17/10/2015. Com o resultado já conhecido, os donos da verdade, que outrora acreditavam no trabalho consistente do treinador e Diretoria tricolores, passaram a atribuir uma culpa que ninguém poderia carregar sozinho: ninguém. Até o vento poderia mudar a história de sucesso de Chamusca, uma bola mais molhada, sei lá. Qualquer coisa que colocasse a bola para dentro do gol do Brasil de Pelotas-RS mudaria a capa dos jornais e opinião de milhões.

Não a minha, Chamusca. Se isto te conforma, eu e muitos torcedores não avaliam o seu trabalho pelo último resultado. Somos poucos, não temos os melhores canais para falar isso, mas, embora não te ovacione como o melhor treinador do século (até porque você já deve ter parado para pensar nos erros que cometeu e que a imprensa sequer sabe), não te condeno como se o resultado em campo fosse uma culpa somente sua. Todos tem sua parcela, e homem é aquele que assume o seu quinhão.

Quando recebia elogios rasgados da imprensa que hoje quer seu sangue, saiba que nenhum destes extremos é verdade. O torcedor está no seu papel de criticar: “coerência” é coisa de jornalista. As palavras que escrevi antes do jogo não tinha prazo de validade. Aqueles que te elogiaram com o título cearense não te trouxeram nenhum bem, assim como estes que te criticam não podem te trazer nenhum mal.

Ver o Fortaleza na terceira divisão é uma das coisas mais duras que a sua torcida pode ter. Aceitar isso por sete anos não pode gerar uma indiferença. Mas ver alguns “formadores de opinião” terem o gozo em cima de quem lhes deu audiência é algo que eu espero não ter que fazer. Espero que o time Fortaleza não se prenda aos admiradores que aplaudem o acaso, possa se abastecer de mais competência e venha a ter motivos a mais para comemorar do que a apoteose gratuita de alguns aproveitadores.

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