#NossoFutebol002 O banquete e o pirulito

O banquete e o pirulito

O banquete e o pirulito

Quem poderia comparar o valor do banquete ao do pirulito? Enquanto o primeiro representa um custo, tempo, investimento, temos no segundo apenas um acessório, algo efêmero, comum, nada demais por assim dizer. Então, por que brigar se ferir e chorar pelo pirulito, esquecendo o banquete que foi posto a mesa?

Semana passada, o alvinegro de Porangabuçu viveu um momento de glória na Arena Castelão. Passou de um time local a um clube com título regional, premiado, com visibilidade nacional, talvez algo inesperado pelo grande público, mas que se tornou concreto em uma noite realmente especial. Isso me comoveu deveras, tanto que dediquei “más traçadas linhas” ao time que sempre vi do outro lado, dada minha condição tricolor de viver. Com certeza, aquela conquista em preto e branco despertou na parte tricolor do nosso Estado muito mais um desejo de estar ali do que necessariamente uma raiva desproposital. Foi uma conquista linda, não só do ponto de vista estético, mas, principalmente, por trazer novas conotações àquilo que se propõe o nosso futebol.

A sensação, amigos, era de ver um banquete na casa do vizinho e não poder estar ali, comendo do mesmo prato, deleitando do mesmo prazer de comer algo melhor, diferente. O banquete estava sendo servido na casa do alvinegro, restando ao Fortaleza contentar-se com a resignação e esperar dias melhores iluminarem as bandas do Pici.

Atrapalhar o penta, talvez fosse o consolo, o conforto. Um pirulito, talvez. De repente, aparecer na janela com um pirulitinho pudesse provocar quem estava dentro de casa, servido do bom e do melhor. Essa era a ideia, que, no entanto, nunca foi o suficiente para mim. Sou daqueles que, a título de exemplo, ao ver a América crescer, não deseja a queda da grande nação, mas que nós somemos ao nosso desejo cotidiano, crescer, ter uma qualidade de vida como a deles.

O tricolor entrou em campo carregado de crianças e suas bexigas no gramado onde fora servido um banquete alvinegro dias atrás. Ironia que essas crianças traziam bexigas, e não… pirulitos. O doce estaria na boca dos tricolores de mais idade, minutos depois desta entrada inocente no campo de jogo.

O Ceará entrou em campo disposto a tornar amarga a tarde dos tricolores, mesmo com uma formação que substituía o consistente Assisinho pelo futebol de William, uma troca, no mínimo, arriscada. O risco teve como preço jogar em campo com um jogador a menos taticamente, visto que o alvinegro jogou com um a menos numericamente com a expulsão de William Correia. O Fortaleza possuía uma maior posse de bola no primeiro tempo, mas a eterna deficiência nas conclusões não tornavam esse volume algo perigoso para a meta do time de Carlos de Alencar Pinto. Somente uma jogada individual poderia quebrar aquele sistema. As armas utilizadas teriam que ser habilidade, algo diferente que pudesse representar algum risco a Luiz Carlos. Talvez um toquinho sem peso na bola, jogando a bola no meio da área. De repente um lençol na zaga e uma conclusão no cantinho do gol. Só isso poderia fazer balançar a rede do dono do banquete. E foi assim que o Fortaleza abriu a contagem do jogo, com um gol raro, totalmente cearense, moldurado por um erro de arbitragem, que não viu o autor da obra Daniel Sobralense receber em impedimento a bola na área e fazer um gol importantíssimo para qualquer pretensão do tricolor de aço.

O clássico não foi tranquilo em nenhum momento, e não custaria barato tirar o título do alvinegro. O já penta cearense voltou para o segundo tempo com uma posse de bola muito superior ao adversário e fez valer essa superioridade no gol de Ricardinho que contou com a colaboração do importado Deola. Ricardinho mantinha sua regularidade, fazendo uma boa partida e mostrando uma faceta de decisão que ele já comprovara no título contra o Bahia. A ironia de ver Assisinho fazer um gol em uma decisão, seu primeiro tento em um clássico-rei e poder ver o Ceará mais uma vez sucumbir o bom trabalho de Marcelo Chamusca foi um golpe duro. Era inevitável que o Fortaleza sentisse, que todos os narradores tentassem fazer uma narração histórica, pois o gol era, de fato, histórico. Por mais que a Copa do Nordeste representasse uma conquista histórica, o penta é o resultado de cinco anos sem ver o adversário conquistar títulos, isso também tem o seu valor. Eram minutos derradeiros, não tinha o que dar errado, valia a pena arriscar, o Fortaleza não teria como reagir.

Restava ao tricolor, duramente ferido, talvez já anestesiado com tantas decepções, arriscar uma bola na área, o que mais poderia ser feito? Relatar um gol de título vindo dos pés de Cassiano, nos últimos minutos concedidos pelo árbitro Péricles Bassols, é algo tão improvável que nenhum tricolor poderia ensaiar para poder fazê-lo bem feito, e não seria eu o mais indicado a fazê-lo. O Fortaleza empatou o jogo, a partida se encerrou e o Fortaleza conquistou o falido campeonato cearense sobre o atual campeão do Nordeste.

É fato a característica inerente ao público infantil de preferir os doces à comida sólida. A raiva de alguns dirigentes (diria que poucos) mostrou que alguns em Porangabuçu queriam a sobremesa como prato principal, algo meio pueril, diria eu, inexplicável, diria meu pai. Perder um clássico é extremamente doloroso, isso é lugar comum, mas o que justificaria dispensar o banquete servido em casa e correr para a rua com o objetivo de tirar o pirulito do vizinho. O pirulito, feito com o objetivo de entreter acabou se tornando inexplicavelmente o principal.

Futebol tem disso, transforma sobremesa em prato principal. Transforma político em vítima de denúncia de agressão contra o árbitro. Transforma o campeão nordestino em vice de um campeonato estadual.

Não farei qualquer tipo de comentário acerca da baderna no fim do jogo. Atitudes como essas estampam as páginas policiais e não merecem ser assunto aqui.

O título de ontem não pode receber o valor da Copa do Nordeste. Tampouco pode esconder as graves fragilidades do campeão. A vitória em um clássico tem seu valor, naturalmente, mas não vai trazer sustentabilidade ao vencedor. Vencer o rival é doce como um pirulito e mesmo que ele seja doce, vistoso, nunca substituirá o banquete.

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